"Ai, essa menina sem juízo, abusada,
Ama sem medida, sem pensar em nada,
Distribui generosos beijos e abraços
Com uma boa vontade que nunca acaba.
E faz dos seus passos,
Por todo lugar que passa,
Trilha de carinho gratuito, desperdiçado,
Como se amor fosse de graça.
E o que recebe de paga?
Perguntam assim, os despeitados,
Abusam, nem retribuem nada à coitada,
Viram-lhe as costas, deixam-na de lado,
Constantemente sozinha, ela acaba.
Tem nenhum ouvido atento às suas histórias,
Retrato de uma futura velha frustrada,
Amargada da vida bruta.
Mas a pobre nem liga,
Mais abraços dá, mais ainda escuta,
E sorri, quem diz...
Riso fácil e verdadeiro de quem está mesmo feliz.
Teve a ousadia de viver uma vida inteira assim,
Empregada dos serviços de tornar mais brando o entorno,
Com sua paz enfática, mágica,
Mesmo que a conta do que recebia de retorno,
Caso fosse feita nos cálculos da matemática,
Acusasse franca desvantagem,
Ajudava à revelia dos nãos,
Dos descaramentos desse mundo cão,
A natural cafajestagem.
Morreu um dia,
Enrugadinha sorridente,
Como morreram, aos pouquinhos
(acontece com toda gente),
Seus aproveitadores doutores, barões, vizinhos,
Bem mais ricos, as rugas mais fundas,
Marcas de malícia, vida com ganhos admiráveis,
Todos sozinhos.
As vozes que lhe apontaram a ingenuidade,
Diziam seria ela a terminar a vida solitária,
Riram por suas costas, de sua conduta,
Chamaram de trouxa, abusaram da otária,
Um por um, a terra foi recebendo cada qual,
Assim como a velha risonha,
Vida de entrega sem igual,
Sorriu mais que qualquer pessoa,
Abraçou demais, beijou e ouviu histórias aos milhões
E amou de graça, fácil, à toa,
Como se fosse a melhor das profissões.
Faça-se jus,
Sua façanha foi viver leve, uma incrível vida boa
Sem nenhuma cruz,
Deixando de legado a prova inequívoca
De que a existência desrespeita a lógica que nos conduz:
- quem dá mais não sai perdendo, não;
- quem só recebe tampouco tem mais;
- os bens da alma somam-se por distribuição;
- quem quer muito nunca se satisfaz.
Assim viveu a moça que amou demais,
As pessoas, as plantas, os animais,
Deu-se tanto que morreu de paz."
-Adriano Dias
(Créditos: Semema)